quarta-feira, 11 de maio de 2011

Saudades de mim!

A vida passa tão depressa que, em certo sentido, chego a sentir saudade da pessoa que fui um dia. Também sinto falta de outras pessoas, embora não seja saudade física, dessas que a gente mata no encontro. Saudade do que elas foram no passado. Do que representaram para mim, do que pensaram, do que fizeram. Enfim. Saudade que não dá para matar no presente, a não ser mentalmente, de modo saudosista e parcial. Deve ser por isso que alguns filósofos separam o mundo em duas partes: o mundo que temos em nossas mentes, idealmente; e o mundo real que experimentamos diariamente. Não tenho dúvidas de que o primeiro é sempre mais interessante e confortável, embora o segundo seja como um despertador a lembrar que nossas melhores lembranças viraram fantasias e que, portanto, não correspondem mais à realidade (o que, às vezes, é bom também). O caso é que não dá para viver só no primeiro ou só no segundo desses mundos. Na transição de um para o outro, aliás, constata-se o óbvio: as coisas já não são mais como antigamente. Daí a saudade! Saudade do que fomos um dia!

 

Saudades de mim!   

 

Gustavo Miranda  

domingo, 8 de maio de 2011

Pequena homenagem

Àquela que me amou primeiro e que - com a simplicidade de seus gestos - não me deu outra escolha, senão retribuir - de modo singelo e sincero - a ternura recebida e o elo estabelecido desde o primeiro colo.

Feliz Dia das Mães!!

Gustavo Miranda

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Mundo assombrado pelos demônios

A vida em sociedade é tão difícil que, às vezes, chego a pensar que algo deu errado no projeto inicial. Sim, porque todos nós sabemos que, apesar do caráter mítico e fantasioso de algumas narrativas, todas as histórias que nos chegaram por meio das religiões, das clássicas epopéias e, também, das ciências antigas dão conta de que o homem é um ser social por excelência, no sentido de depender dos demais seres humanos e, naturalmente, do meio em que vive. O que ocorre é que, embora essa dependência seja óbvia e, em certa medida, louvável, não se pode negar que a independência também sempre figurou como ideal a ser alcançado entre os seres humanos. Com isso, muitas vontades. Muitos desejos. E, modernamente, muitas individualidades ferveram ao longo dos milênios. No limite, gerou-se o paradoxo de que falei no início deste parágrafo: somos seres sociais, sim! Dependentes, sim! Mas também carentes. Carentes de independência, de satisfações pessoais, de sucessos particulares, de massagens no ego.

 

Aos teóricos do homem, tudo isso sempre soou muito natural e parte integrante de um processo abrangente. A questão, no entanto, é que nunca foi simples ser a única espécie a carregar tantas energias opostas internamente. Esses são, aliás, os únicos e verdadeiros demônios do mundo. Demônios que carregamos dentro de nós, no coração. E que tentamos ocultar a qualquer custo, embora eles sejam fortes o suficiente para continuar a tornar nossa vida em sociedade difícil e, às vezes, impraticável. 

 

Gustavo Miranda  

domingo, 24 de abril de 2011

As lacunas da traição

Não me parece inapropriado pensar que, em matéria de traição, e me refiro às traições conjugais em sentido amplo, o foco - tanto para mulheres como para homens - seja menos a aventura de viver perigosamente do que a necessidade, quase insuportável, de preencher as lacunas que foram deixadas (e, às vezes, mal-compreendidas) pelo outro durante os anos. Assim, parece-me claro que há tipos de traição que são menos uma questão de seios irresistíveis e de corpos perfeitos do que uma questão de encontrar um sentido de vida e de buscar a felicidade. Trai-se, paradoxalmente, por falta de opção. Por necessidade. Trai-se por falta de caminho. Ou melhor, com o intuito de encontrar o tal caminho, embora nem sempre essas motivações estejam explícitas (em geral, não estão).

 

Não quero afirmar, com isso, que a responsabilidade da traição é apenas de quem foi traído (e, na verdade, tenho a impressão de que o contrário também não é verdadeiro). Só estou sugerindo que, quando o assunto é traição, o melhor mesmo é olhar para as lacunas. As lacunas deixadas pelos anos de convivência. São elas, para ser sincero, a depender da importância que têm para as duas pessoas envolvidas, que abrirão ou não o caminho para uma terceira pessoa. Lacunas, afinal...  

 

Gustavo Miranda

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Controle

O que a Igreja fez durante boa parte da Idade Média passou a ser tão imprescindível para as organizações atuais quanto o foi para a santa inquisição naquela época. Cultivar a fé e os bons princípios? Nem tanto, nem tanto! O que ocorre nas organizações atuais, sejam elas empresariais ou não, é a busca frenética por controle. Controle dos corpos, controle dos pensamentos. Controle das ações e de tudo o que possa valer a pena controlar. Quem nunca parou para refletir sobre o assunto, pode começar dando uma espiadela pelas ruas e pelos corredores das empresas. Câmeras. Catracas eletrônicas. Relatórios de produtividade. Olhos e ouvidos por todos os lados. Talvez seja essa a identificação natural que as pessoas demonstram ter com os reality-shows. É que a vida contemporânea tornou-se um Big Brother por excelência, apesar de ganharmos bem menos (bem menos) para entreter tantas pessoas (nossos chefes, pais, professores, etc.).

Gustavo Miranda  

sábado, 9 de abril de 2011

O massacre de nossas convicções!

O grande mal dessa modernidade tardia - e, na verdade, não consigo decidir se deveria ver isso com bons olhos ou não - é que, além de as certezas nos terem sido subtraídas de forma traumática e violenta, ficamos também com a impressão assustadora de que os remédios que anunciavam a cura nos deixaram ainda mais doentes e acovardados diante das dúvidas. O massacre sanguinário e premeditado dessa semana, embora recorrente em outros lugares do mundo, não deixa dúvidas. Somos uma sociedade doente. Carente. E, por mais que os especialistas se esforcem agora para tentar explicar o que deu errado, sabemos que não há explicação. A não ser aquela - amedrontadora, na verdade - que constata o óbvio: estamos entregues ao caos; e não há mais regras capazes de nos devolver a tranquilidade de que gozávamos antes.

 

O que quero dizer é que a morte daquelas crianças, tão cheias de vida e certamente portadoras da esperança de um mundo melhor, representa um mal menor comparativamente à desilusão que, pouco a pouco, tem se espalhado por todos os cantos do planeta. Com isso, devo enfatizar que o grande mal do período atual é que perdemos a confiança nas rotinas capazes de controlar os comportamentos. Perdemos a fé na segurança, de um modo geral. E estamos agora a contemplar a imagem de um monstro no espelho. Nós mesmos, na verdade. Inconstantes. Problemáticos. E, sem dúvida alguma, amedrontados e vulneráveis.

 

Não se enganem! Não foi a primeira nem a última vez que inocentes morreram de modo bárbaro e planejado. Isso ocorre todos os dias. A dor desta vez é que crianças e escolas sempre foram termos que simbolizaram paz, esperança e mundo melhor. E, infelizmente, agora nem essa certeza podemos levar para o túmulo.

 

Nossa alma está em luto... pela morte de nossas convicções.     

 

Gustavo Miranda

domingo, 3 de abril de 2011

A dor de saber pouco ou quase nada

Não tenho certeza se as dificuldades e o sofrimento são, realmente, condições essenciais para o aprendizado e o desenvolvimento humanos. O que sei é que muitas pessoas argumentam que essas situações, de cotidianidade, de dor e de obstáculos, trazem em seu bojo aspectos positivos que, segundo elas, são capazes de nos fazer refletir sobre coisas que, de outro modo, não seriam jamais objetos de nossa análise. Isso, apesar de parecer compreensível para muitos, tem pouco significado para mim. Em primeiro lugar, porque sempre desconfio desse sentido que nós, os humanos, tentamos criar a posteriori (sempre a posteriori) sobre as dificuldades que nos assolam. A meu ver, isso serve mais como tentativa de se conformar com as coisas, de ajustar o alvo aos dardos lançados pela vida, do que como explicação factível e razoável capaz de aquietar espíritos mais críticos e inconformados (como o meu, por exemplo). Em segundo lugar, porque tenho dificuldades em aceitar a ideia de um sistema cognitivo que só atinge seu máximo desempenho quando atrelado às dificuldades e às dores diárias, embora eu compreenda perfeitamente que essa lei, de um ponto de vista seletivo, é genial e - ao mesmo tempo - enigmática. A dificuldade como mãe da criatividade. Por tabela, a constatação de que a felicidade não produz ideias interessantes! (Será?).

Isso tudo, naturalmente, são meras reflexões de uma mente atordoada e cansada de ver tantos sofrimentos mundo afora. Só queria mesmo entender por que fomos abandonados à própria sorte e por que estamos fadados a viver sempre com as mesmas dúvidas.

Faz sentido para alguém?

Gustavo Miranda