domingo, 11 de dezembro de 2011

Cenas Urbanas

E então vi duas crianças dentro da Häagen-Dazs; irmãs; bem vestidas; brincando através do vidro transparente com uma terceira, que acenava do lado de fora; vendedora ambulante de adesivos; pobre; sem teto; moradora de uma rua em que luxo e miséria caminham lado a lado, aparentemente sem incomodar ninguém. As três estavam separadas pelo vidro de nossa incompetência social. Mas não pela alegria pueril de quem, desconhecendo as desigualdades, encontra razão suficientemente forte dentro de si para compartilhar o sorriso.

Gustavo Miranda

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Um deus à minha imagem, fraco

Deuses onipotentes, mas limitados pelas próprias leis ou, em última análise, confinados às escolhas humanas, já não me seduzem mais. Perderam o encanto, assim como os contos de fadas, que, embora confortantes e sedutores, deixaram de ter o mesmo apelo após certa idade. O que quero hoje é um deus fraco. Capaz de chorar comigo pelo que não deu certo. Ou, talvez, de lamentar o triste acaso, as derrotas, os infortúnios, as mesmices de cada dia. Não acredito mais nesses superdeuses, porque - na verdade - poucas coisas nesta vida são "super". A maior parte delas é opaca, sem cor, sem sal. E não me sinto reconfortado por saber que um deus infinitamente poderoso nos abandonou à própria sorte, presos às paixões do ego, fadados ao esforço mental de vislumbrar um suposto futuro em ruas de ouro. Sim, eu sei que há uma poética envolvida em tudo isso e que, provavelmente, essa seja de fato a essência humana: de incertezas, de inconstâncias e de esperanças. Todavia, é justamente essa fraqueza humana que me faz querer alguém como eu, que seja realmente à minha imagem. Um deus fraco. Que me console pelo ombro amigo e pelo choro mútuo, jamais pelos poderes milagrosos ou pelas promessas de um paraíso perfeito.

Gustavo Miranda
   

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O silêncio das palavras

Tantas palavras no dicionário. Tantos sinônimos. Antônimos. Adjetivos. Substantivos. Tantas expressões e nenhuma capaz de explicar o sentimento que se tem ao lado da pessoa amada. Nenhuma capaz de intuir a emoção que se sente ao beijo da mulher apaixonada. Pois, se há algo que verdadeiramente distingue os seres humanos dos outros animais, tal diferença só pode ser encontrada do lado de dentro, na alma, lá onde o silêncio das palavras enfatiza a total inutilidade das descrições e, também, a efemeridade (e eternidade) dos sentimentos.

Gustavo Miranda 
  

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A nudez e as máscaras

A nudez, seja de que tipo for, mostra sempre menos do que a mente imagina e mais do que ela, de fato, gostaria de ver. Eis a razão de nossa preferência pelas máscaras e por tudo o que possa maquiar temporariamente a realidade. Não é fácil aparecer nu, diante de todos, despir-se de rótulos e de títulos, livrar-se das vestes, abrir o peito e mostrar o que há de melhor ou de pior no seio de nossa alma.

Gustavo Miranda

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Ausência

Fui a um templo religioso. E tive uma experiência de ausência. Ausência no sentido de não encontrar o anfitrião da festa, Aquele sobre o qual muitos falam e para o qual dirigem a palavra. Não O vi. Altar vazio, em vez disso. Cheguei até a pensar que Ele poderia ter-se escondido atrás do piano ou no meio do coral. Mas errei. Ele também não estava lá nem em lugar nenhum. Ausência total. Cansado desse esconde-esconde espiritual, levantei-me e fui embora. Lá fora, já bem distante das músicas e dos apelos, a criança que guardava o carro deu-me o sorriso mais bonito que já vi, simplesmente por ter ganhado uma moeda. Então eu O contemplei. Estava lá. Fora dos templos e dos interesses humanos. Num simples sorriso. Num simples encontro casual.

O indizível. O inexplicável.

Gustavo Miranda    

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Escolhas e Renúncias

As escolhas que fazemos na vida são, em última análise, um tipo de renúncia silenciosa. E isso, dito de outra forma, significa que escolher é, ao mesmo tempo, um ato de abdicação. Pois escolher é especificar. Mas especificar é sinônimo de focalizar. E, naturalmente, é impossível focalizar coisas na vida sem desconsiderar outras, sem conferir menor importância ao não-escolhido. A meu ver, é o que fazemos o tempo todo, já que a vida é feita de escolhas. A questão é que são essas escolhas que definem o foco, os caminhos e os valores que moldam a personalidade. Mas nem todas elas são voluntárias. E diria que a maior parte acontece sem que tenhamos a menor consciência disso, independente de nossa vontade.

Gustavo Miranda

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sem regras, sem receitas

Não, não me peça para dar regras ou receitas. Não acredito nelas. Desconfio. Questiono. E, no fundo, creio que elas são sempre as ferramentas para a conformidade, para a falta de crítica, para a crença cega (e perigosa) que pode engaiolar qualquer um. Esse é, particularmente, o problema que tenho com as religiões (e por isso não sou adepto de nenhuma). São muitas regras. Muitas normas. E pouco fair-play. A meu ver, a vida não cabe dentro dessas regras. Não se restringe a elas. A menos que o amor pelos preceitos religiosos seja tal que a cegueira dê a impressão de que seguí-los é o mesmo que viver. Mas não é o meu caso (já foi!). Hoje prefiro pensar que há sentimentos fortuitos que, em questão de segundos, umedecem os olhos, secam as feridas, silenciam as palavras e amplificam a consciência. Tudo em questão de segundos. Sem regras. Sem receitas.

Apenas como a vida deve ser.      

Gustavo Miranda