terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

As coisas como realmente são

Eu, às vezes, tenho vontade de saber como são as coisas quando não estou a olhar para elas. E me ocorreu, certa vez, que se eu colocasse uma máquina fotográfica que disparasse automaticamente quando meus olhos estivessem distantes o suficiente, eu saberia - finalmente - qual a realidade das coisas. Não deu certo! É que as coisas, elas próprias, são muito mais espertas do que a gente pensa. Elas sabem que dentro de cada máquina fotográfica existe um olho humano genérico. E, por isso, nunca se deixam fotografar como realmente são, acabando com toda a pretensão de realismo humano.

Gustavo Miranda

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Fluidez

O mundo, definitivamente, não é mais "sólido" como antes. Ele é "líquido", é ambivalente, é instável, é fluido. Uma das principais decorrências de tudo isso é que os laços se perderam. Motivo simples, na verdade, esperado: atualmente, não importa saber apenas quando certas relações devem ser estabelecidas e aproveitadas, mas, sobretudo, quando devem ser descartadas ou substituídas. Radical demais? Também acho!

Gustavo Miranda

Diversidade

A palavra de ordem atualmente é diversidade. E, embora seja interessante argumentar de modo favorável a esse conceito, na prática mesmo observam-se dilemas quase insuperáveis. Isso porque a diversidade assusta, já que propõe no lugar dos caminhos absolutos uma alternativa. Aterroriza indefinidamente, porque faz os critérios de verdade já conhecidos curvarem-se diante de um relativismo multifacetado. É parar para pensar: o mundo hoje é tão diverso, tão diferente, que, às vezes, custa acreditar que somos todos parte de uma mesma família. Melhor assim, afinal. Melhor assim. No fundo, são as diferenças que nos aproximam!

Gustavo Miranda

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Ausência

Esses mais de 30 dias sem minha mãe têm sido dolorosos demais, mas – ao mesmo tempo – têm me ensinado muito também. Em primeiro lugar, a aceitar que a vida é constituída de momentos; e, claro, que os momentos passam, sejam eles bons ou ruins. Em segundo (um desdobramento dessa primeira ideia), a dar valor ao presente, às pessoas ao redor, aos momentos singulares que, vez ou outra, adornam nossa existência. A vida é isso. É dor. É alegria. É tudo misturado, às vezes tudo de uma vez só. Enfim. A ausência é um tema bem presente na vida de qualquer um. E dói. Dói muito.

Gustavo Miranda

sábado, 29 de dezembro de 2012

Feliz 2013!!

Não sei quantificar muito bem, até porque coisas assim não são quantificáveis nem enumeráveis, mas sinto que termino o ano como um "sobrevivente". Claro que isso se deve menos à minha preocupação (já passada e atenuada... rs) com o "fim do mundo" que com as características particulares do ano de 2012. Mas acho que saio mesmo deste ciclo com a sensação de alívio, torcendo talvez para que 2013 seja mais dócil, mais afável, menos turbulento, mais digno, embora esses sejam apenas desejos jogados num infinito e complexo mar de probabilidades (e que talvez nunca aconteçam). Sei bem que não é muito literário nem agradável conceber as coisas desse modo, mas ao mesmo tempo me soa poético que, em meio a tantas possibilidades distintas, eu esteja aqui neste preciso momento, pondo tudo em perspectiva e compartilhando minhas angustias mais perenes com pessoas que, literalmente, me ajudaram a passar pelo pior. Não sei quantos "obrigados" falei. Nem quantos abraços distribuí. Mas não tenho dúvidas de que entro em 2013 com a sensação de que fui amparado por vários, escorado por muitos e lembrado por praticamente todos. Sou um sobrevivente, sim! Todos nós somos! Mas só porque estou "apoiado em ombros de gigantes", de gente comum e solidária (como você que está lendo isto agora).

Então, feliz 2013 antecipado!!

Gustavo Miranda

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Não faz sentido

Não sei se a vida é mesmo tão condutora e dotada de sentido como, às vezes, tendemos a pensar. Acho apenas que temos de nos conformar com a maior parte das coisas que nos acontece e sobre a qual não temos o menor controle. E adaptar. Porque, no mais das vezes, esse nosso discurso não passa de autoconsolo, no sentido de que precisamos encontrar (fabricar?) algum valor nas conchinhas que o mar da vida nos traz a cada nova onda.

A vida, por si só, não faz sentido algum! Mas, em meio a tantos dilemas filosóficos, um aspecto ainda faz: nossas experiências, nossas emoções, nosso encontro com o outro, nossas paixões.

É o que levamos dessa vida...

Gustavo Miranda

sábado, 20 de outubro de 2012

Um livro sobre a liberdade?!

Estou escrevendo um pequeno livro de registros pessoais em que o pano de fundo é exatamente este: a liberdade de escolha.

O interesse pelo tema se deu de maneira mais ou menos óbvia. A meu ver, vivemos o dilema registrado na fala memorável de um dos personagens de Dostoievski: se Deus não existe, então tudo é permitido. Essa paráfrase do livro "Os Irmãos Karamazov" tem sido frequentemente mal interpretada durante o século XX, sobretudo por religiosos que buscam em Dostoievski (bem em quem) uma suposta defesa da moralidade a partir de princípios religiosos. Na verdade, o escritor russo não queria enfatizar a possibilidade de amoralidade se extinguirmos o conceito de deus; mas, antes, sublinhar – como fica claro na leitura do trecho todo – que, se abdicarmos da noção de deus, então recai sobre nossos ombros (e somente sobre eles) toda e qualquer responsabilidade diante das escolhas e dos atos que fazemos. E isso não só parece aterrador do ponto de vista prático como, também, nos deixa com um controle sombrio da vida que, provavelmente, não fazemos questão de saber que temos.

E aí caímos no paradoxo: lutamos muito para ter o controle das situações, mas, quando finalmente ele está em nossas mãos, fazemos questão de passar a bola para outro (ou lamentamos que tenhamos tantas alternativas). E veja: é uma preocupação legítima, já que Sartre andou por aí quando afirmou que "o homem está condenado a ser livre". E Nietzsche ficou louco ao propor que a ideia de um deus que justifique os acontecimentos à nossa volta é totalmente desnecessária (naturalmente, dizer que sua loucura pode ser explicada a partir dessa base é mera suposição minha).

O fato é que dá medo mesmo. Tomar decisões. E não sem razão. A vida é um quebra-cabeça complicado demais para seres tão (i)limitados.

Bem, o livro é sobre isso. Aguardem!

Gustavo Miranda