segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Desconfiar de nossos juízos

Você desconfia de suas próprias ideias e ações?

Fiz essa pergunta a mim mesmo várias vezes ao longo dos anos. Mas hoje, ao ouvir uma amiga contar que havia reatado com o antigo namorado, a questão - uma vez mais - bateu à minha porta. Baseados em que tomamos certas decisões que julgamos mais apropriadas do que outras? Qual o critério? O que influencia nossa mente nessas horas?

Não sei bem o que dizer, a não ser que foi exatamente esse o pano de fundo que levou o português, António Damásio, a escrever um livro que se tornou best-seller em todo o mundo: O erro de Descartes. Nele, o autor defende que não agimos racionalmente o tempo todo. Ao contrário, Damásio afirma que a ausência de emoções pode, na verdade, destruir a racionalidade em vez de potencializá-la. A referência a Descartes seria uma alusão a essa ideia: mente e corpo não são coisas distintas. O erro do famoso cientista francês foi apenas considerar a separação, esquecendo-se do todo.

Um caso clássico da neurociência, retratado no livro, ilustra bem a questão: o acidente de Phineas Gage. Phineas Gage foi um construtor de ferrovias australiano, muito educado e gentil, que viveu por volta de 1850. Seu caso tornou-se famoso porque, depois de trabalhar alguns anos na ferrovia, Gage sofreu um acidente com uma barra de ferro que lhe atravessou o crânio. Foi atendido. Não morreu e não ficou com sequelas, apenas perdeu um dos olhos. Mas o que se passou nos anos posteriores foi totalmente surpreendente. Gage começou a usar palavras obscenas, fazia comentários cruéis e desnecessários, tratava mal seus companheiros, enfim, teve uma mudança drástica em seu comportamento e em suas ideias, resultado direto (o que acabou comprovado mais tarde) do acidente que sofreu.

O caso de Gage é emblemático porque mostra que uma pequena alteração em certas regiões do cérebro pode nos fazer agir de outra maneira, pensar de outra forma e, no limite, até alterar nossa identidade substancialmente. Não que isso seja incomum, porque, com ou sem acidentes, estamos acostumados a ver as pessoas mudando por aí. O importante é que isso traz novamente à tona questões que nunca deixaram de fazer parte da pauta: quem somos nós, na verdade? O que é a nossa personalidade? E onde está situado esse lugar que abriga nossa identidade e nossos melhores juízos?

Naturalmente, minha amiga não pensou em tudo isso para concluir se devia ou não reatar com o antigo namorado. Ela "simplesmente" julgou que era uma boa opção. E pronto.

Isso não invalida a questão, porém. Pois também acredito que o nosso corpo, sábio que é, embriaga constantemente nossos olhos para que nossas decisões pareçam coerentes e fruto de complexas avaliações. É o que muitos chamam de "auto-engano" ou de wishful thinking.

No fundo, no fundo... creio que o debate é bem mais agudo do que parece. Mas também não tenho certeza. Aprendi a desconfiar de minhas próprias conclusões e de meu próprio comportamento. Isso faz bem.

Faz-nos humanos!

Um abraço,
Gustavo Miranda

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Você é feliz?

Nunca me fizeram esta pergunta (bem complicada, aliás), mas - se me fizessem - acho que eu saberia o que dizer.

Em primeiro lugar, há que separar as coisas. É bom que se diga que não acredito na felicidade como objetivo, como fim, ou (como fazem os religiosos) como esperança para uma situação futura, um mundo vindouro, uma dimensão privilegiada, etc. E minhas razões são simples. Primeiramente, porque, se a felicidade fosse um projeto para o futuro, nós todos que, teoricamente, nunca alcançaremos o futuro, pois só vivemos de presente, jamais seríamos felizes e, portanto, o projeto seria utópico. Outra razão seria a seguinte: fazer da felicidade um objetivo final significaria ir contra todas as experiências de felicidade que temos. E, com isso, quero dizer que, aparentemente, somos tão mais felizes quanto menos planejamos ser. A felicidade parece ser como a areia de algumas praias. Quando as apertamos nas mãos, elas escapam e assistimos, perplexos, à nossa total incapacidade de retê-las. Logo, pretender incluir a felicidade na lista de metas a conquistar seria perda de tempo, a meu ver. A felicidade aparece quando quer. Mas vai-se embora quando quer também.

Outra coisa a considerar seriam as palavras em si. "Ser feliz". Não sei se acredito que alguém possa "ser feliz", de modo pleno. Talvez eu esteja mais inclinado a pensar que as pessoas (eu incluído) têm momentos de felicidade, experiências alegres que produzem felicidade, sendo que a variação fica por conta do fato de que uns têm mais momentos desses; outros, menos.

Que é melhor ser feliz do que infeliz, não está discussão. Minha resposta à questão, no entanto, caminharia por aí. Se sou feliz? Responderia com prazer que eu tento ser feliz. Que eu busco ser feliz. Mas essa busca, diferentemente do planejamento para o futuro, da esperança de uma situação ideal, é uma busca para agora. Para já. Só creio que podemos ser felizes agora, neste momento, porque, filosoficamente, não somos nada no passado. Nem no futuro. Só podemos ser no presente... e é no presente que precisamos ser felizes.

No fundo, o que quero dizer não é muito diferente do que André Comte-Sponville já disse em seu belo livro, A felicidade desesperadamente. Quanto mais esperanças tivermos de um futuro feliz, menos estaremos aptos a ter experiências de felicidade reais e abundantes. Parece um paradoxo? Não é. Por isso procuro ser feliz agora, neste momento. Já!

Os cristãos, aliás, têm um motivo a mais para pensar com carinho no que acabei de propor. Afinal, não era exatamente essa a proposta do "não andeis ansiosos pelo dia de amanhã"?

Basta a cada dia o seu próprio mal.
E eu acrescentaria: basta a cada dia a efemeridade da felicidade.

Não sou feliz. Mas tento ser. No caminho. Jamais no destino.
E é assim que deve ser!

Um abraço,
Gustavo Miranda

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Efemeridade e Preciosidade

Gosto da ideia de que estamos aqui de passagem. Porque creio que ela enfatiza o aspecto temporário de nossa existência, o que acaba por gerar uma visão de mundo mais realista, mas - sem dúvida - também mais significativa. É verdade que o termo "de passagem" levanta dúvidas sobre nosso verdadeiro destino. E alguns enxergam essa questão pelo aspecto religioso. Mas não penso que seja assim. A "passagem", a meu ver, realça a brevidade de tudo e de todos. A efemeridade e, ao mesmo tempo, a preciosidade de tudo o que sentimos e pensamos.

Acho que era isso o que Nietzsche estava pensando:

"A grandeza do homem é ser uma ponte, e não uma meta; o que se pode amar no homem é ser ele uma passagem e um termo".
(NIETZSCHE, Assim falava Zaratustra).

Um abraço,
Gustavo

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O Espiritualista e o Materialista

Não sei se o universo conspira a nosso favor quando queremos alguma coisa. Mas não tenho dúvidas de que, quando a gente realmente quer algo, trabalhamos duro, lutamos, suamos a camisa... e, no final das contas, acabamos conseguindo (de um jeito ou de outro). Não há nada de mágico nisso. Só esforço mesmo. E uma pitadinha de intuição, claro.

A diferença entre o espiritualista e o materialista é que, para o primeiro, há sempre a esperança de alguma ajuda sobrenatural e facilitadora, enquanto que, para o segundo, não há tal esperança, apenas a convicção de que "somos todos responsáveis por tudo, diante de todos" (Dostoievsky). Isso não quer dizer que um seja mais racional que o outro, nem que um seja 100% espiritualista e o outro 100% materialista. Não funciona assim! São apenas modos de ver as coisas. Eu, particularmente, gosto de pensar que o ser humano precisa dos dois pólos: em algumas ocasiões, é necessário ver o mundo de um jeito; em outras, de outro.

Não nego, porém, que sou mais materialista do que espiritualista. Mas essa é uma longa história... e nem sei se sou assim por livre escolha.

O importante é que, parece-me, o materialista tem sempre menor chance de se decepcionar, já que não espera muito, do que o espiritualista. E deve ser precisamente por isso que há tanta gente decepcionada com Deus e com a vida por aí. Esperam demais! No fundo, o que quero dizer é que a diferença entre os dois é que um tem mais esperança que o outro (esperança de que o universo conspire a favor, no caso do espiritualista). Mas esperar demais traz infelicidade e decepção. Todos nós sabemos disso.

Seria o caso, então, de viver desesperadamente?

Se quiserem um caminho para pensar essas e outras questões, leiam o livro de André Comte-Sponville, A felicidade desesperadamente. Vale a pena!

Um abraço,
Gustavo Miranda

domingo, 18 de julho de 2010

Meus trinta anos...

Já chorei. Já ri. Brinquei. Lutei. Estudei. Trabalhei. Já amei. Odiei. Xinguei. Dormi. Acordei. Pulei. Sentei. Planejei. Faltei. Fingi. Menti. Sonhei. Senti...

Acho que meus trinta anos foram bem-vividos (mas isso ninguém pode julgar. Nem eu mesmo). O fato é que tive sorte em algumas coisas. Azar em outras. Mas, em todas, procurei viver com inteireza de espírito e sobriedade de atitudes. Tudo isso para que hoje, diante dos excessos e dos equívocos que cometi, não pousasse sobre mim o fantasma da culpa de não ter falado quando podia e calado quando devia. Tudo isso para que agora eu pudesse olhar no espelho para dizer o simples, o óbvio, o esperado:

Vale a pena estar vivo!!

Na verdade, tenho saudades de jogar bolinha de gude, de empinar pipas, de tomar banho de chuva ou de jogar vídeo-game (o Atari de tantas alegrias). Mas também me fazem falta os amigos de então, as pessoas com as quais vivi, a inocência pura de uma época em que a única preocupação era com a diversão, ainda que todos nós, crianças da década de 1980, soubéssemos que - mais cedo ou mais tarde - a vida se tornaria séria demais e nos forçaria a tomar nossos próprios rumos, para o bem ou para o mal.

Eu tomei meu próprio rumo... e aqui estou. Maravilhado e grato pelo "até aqui". Sem saudosismos, pois creio que o melhor ainda está por vir. Mas convicto de que já valeu a pena viver para chorar, rir, brincar, lutar, estudar, trabalhar, amar... sonhar e sentir... tudo o que fiz (e não me arrependo de nada) nesses trinta anos, nessas três décadas de alegrias e tristezas.

Obrigado pelo carinho de vocês!

Um abraço,
Gustavo

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Gratuito e a céu aberto...

E as luzes se acenderam de repente. Raios por toda parte. Aqui. Ali. Amarelados. Avermelhados. Acinzentados. Azulados. Negros. Rosados. As cores mais variadas e transitórias que já vi. No horizonte, o astro maior saindo pela porta dos fundos. Tímido. Resignado. Perdendo força. Iluminando ainda imaginações alheias; apagando os rastros do cansaço diário. Algumas nuvens de algodão estavam solidárias, na verdade reticentes ao último espetáculo do mais brilhante dos brilhantes. O turno estava terminando; o ciclo se completando. Nunca mais, em tempo algum, aquela tela, pintada ao acaso pelos deuses astronautas, iria se repetir com aquela mistura de cores e de tons. O espetáculo era único, como únicas eram as emoções de estar ali, plantado, admirando de longe, a mais comum - talvez a mais fantástica, ainda que raramente notada - demonstração de beleza da nossa mãe Terra. O relógio marcava 18:03. E o céu inteiro irradiava formosura e fazia ecoar um "Até breve, voltamos amanhã!". As luzes começaram a se apagar; e os raios a murchar discretamente. Ao longe, ainda contemplei as cortinas se fechando e o espetáculo (QUE PENA!) terminando. Aquele pôr-do-sol eu jamais veria outra vez. Também aquele "eu" jamais voltaria a ser novamente.

A vida é como um pôr-do-sol. Bela e efêmera. Clara e escura. Única e múltipla. Nada mais.

Um abraço,
Gustavo     

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Quem sou eu?

Gosto muito dos escritos do psicólogo e antropólogo Roberto Crema. Sobre a fragmentação da vida, ele escreve algo que gostaria de mostrar a vocês:

A existência foi compartimentalizada. Das oito às dezoito horas, o indivíduo veste uma persona profissional. Em casa, ostenta outro papel – de pai, mãe, filho, irmão, etc. Folga no final de semana e, geralmente na manhã de domingo, aparamenta-se de religioso. No banheiro, relaxa. Uma vez por ano tira férias dos papéis habituais, troca de rotinas. E quase nunca se pergunta: além desses papéis triviais, quem sou eu? (CREMA, 1993, p. 133).

E não é isso mesmo? Quem sou eu, além da correria do dia a dia, dos compromissos a honrar, do trabalho a executar e dos papéis de pai, mãe, filho, irmão, etc.?

Quem sou eu? E quem são vocês?

Talvez a solução das grandes dificuldades que temos atualmente em sociedade esteja diretamente atrelada a essa reflexão. Uma pena que nas escolas não se fale disso.

Um abraço,
Gustavo