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quarta-feira, 10 de junho de 2009

O nascimento da borboleta

Desencanto
By José Saramago

Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma maioria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo. Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia. O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo.

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E aí me vem a pergunta: estamos assistindo à morte da lagarta ou ao nascimento da borboleta? Para ser sincero, tenho dúvidas.

Um abraço,
Gustavo

domingo, 15 de março de 2009

Frutos de todos e Terra de ninguém


O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer 'isto é meu' e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: 'Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém'.

A citação é de Jean-Jacques Rousseau(1712 - 1778), uma das figuras mais marcantes do iluminismos francês.

Um abraço,
Gustavo

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Adicionando um fermento...

Percebi que poderia ter mencionado uma coisa em meu texto anterior, que agora faz todo sentido. Ser honesto nas escolhas e no modo como construímos nosso pensamento é assumir as preferências. É dizer "penso e ajo assim, porque prefiro assim, simpatizo mais com esse modo de ver as coisas, gosto assim".

A falta de honestidade das autoridades (professores, padres, políticos, chefes de empresa, etc.) que mencionei se deve a isso. Elas não dizem que pensam daquele jeito porque preferem daquele jeito. Dizem, ao contrário, que pensam de um determinado modo porque aquele é o mais correto, aquele é o verdadeiro, aquele é o normal, etc. Isso é uma farsa. Conduz aos fundamentalismos que temos visto. E deve ser evitado.

Mas é simples resolver o problema. Só precisamos ser honestos. Nada de explicações supostamente objetivas. Um simples "eu gosto assim, o outro assado" já encerra o assunto.

Um abraço,
Gustavo

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Provérbio

Achei bastante interessante este provérbio e espero que vocês reflitam:

"A verdade é um espelho que caiu das mãos dos deuses e se quebrou. Desde então, cada um recolhe um pedaço e afirma que toda a verdade está naquele caco".
Provérbio Iraniano.

Um abraço,
Gustavo

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O elixir da longa vida

Não tenho dúvidas de que a ciência tem desempenhado um papel fundamental em nosso cotidiano. Tem prolongado vidas, por exemplo, que - de outra forma - já não estariam mais entre nós há muito tempo. A dificuldade, no entanto, é que falta uma coisa. Falta o “x” da questão. Falta descobrir como fazer as pessoas viverem mais e melhor, já que, se não for assim, todo o resto será apenas o prolongamento de uma vida que já deveria ter acabado (será sofrimento, enfado e cansaço).

Não que o aumento da expectativa de vida e os desdobramentos possíveis não me agradem. Agradam-me, sim! E muito! A questão, porém, é que me causam horrores também. Na verdade, fico sempre refletindo: que triste seria querer morrer e não poder...

Clarice Lispector tratava desse dilema numa crônica simples e despretensiosa intitulada “A eternidade num chiclete”. Dizia ela que o peso da eternidade, ao que parece, é maior do que imaginamos. Mas o problema é que só nos damos conta disso quando já é suficientemente tarde e já não importa muito viver.

Insisto: falta o “x” da questão. Números e qualidade. Aliar os dois ainda parece ser um sonho distante, ainda que isso, por si só, não deixe de alimentar nossas fantasias mais antigas todos os dias. O elixir da longa vida, afinal. A imortalidade. Será possível?

Gustavo Miranda

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Alunos que deixam saudades...

É curioso. Quem nunca deu aula, não sabe o que é. Esse sentimento bom, ao mesmo tempo triste, que nos invade quando vemos nossos alunos se formando, indo embora, iniciando uma nova etapa, sorrindo para a vida. É gostoso, claro. Triste também. Porque, no fundo, é impossível negar que as pessoas nos marcam. E, se marcam, deixam saudades. Abrem uma lacuna na alma que não será mais preenchida pelo convívio diário. Ficarão lembranças no lugar.

E este ano a história se repete. Turmas se formam. Encontros novos surgem. Despedidas. Lágrimas. Sorrisos. Vida nova. Alguns desses alunos tiveram aula comigo durante três ou quatro anos. Somos velhos amigos. Talvez seja por isso que desejamos de modo recíproco a velha alegria de sempre. A velha alegria que renova. Que dá ânimo. E que, sem dúvida, consola ambos: os que vão... e os que ficam. Alunos e professores.

Visualizei uma imagem: um homem debruçado na varanda de um prédio alto. A analogia é que, para os que se formam, o tempo é de se debruçar sobre o que foi feito. Tempo de analisar. De refletir. De planejar. De se abrir para um mundo de novas possibilidades. Sem perder de vista o céu que vemos pela varanda, muito mais alto, muito mais formoso, significando que ainda temos muito a "escalar". Muito a estudar.

Se vamos alcançar o céu, não sei. Mas, se o poeta está certo, então nem precisamos. Existem mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia.

Enfim. Tudo isso para dizer que esses momentos marcam... e que os alunos deixam saudades. Rubem Alves diz que "a saudade é o bolso em que a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou". Concordo plenamente. E, como sou professor, acrescento que a cada ano meu "bolso" fica mais bonito e mais cheio.

Sucesso a todos os meus alunos que se formam e que... deixam saudades.

Um abraço,
Gustavo

domingo, 6 de julho de 2008

O Tempo

A gente não percebe, ou não quer perceber, que - enquanto planejamos nossa vida, enquanto nos enganamos com promessas de amanhã - existe algo que não pára, que não espera, que não volta atrás e não fica ressentido pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Ele simplesmente continua, sua batida organizada e milimetricamente cadenciada, esperando que algum dia alguém perceba que ele é a moeda mais valiosa que carregamos.

Mas, querem saber? Isso não acontece até que seja suficientemente tarde. Até que seja suficientemente irreversível. Antes disso, existem preocupações demais, de modo que é impossível dar valor a algo que supostamente temos em abundância. Aos 12 anos, não temos sequer maturidade para avaliar sua importância. Aos 30, estamos tão atarefados que esse detalhe passa despercebido. Aos 50, pensamos que ainda teremos o momento certo para pensar no assunto. E, aos 70, nos damos ao luxo de sonhar com a imortalidade. Porém, cedo ou tarde (e, geralmente, tarde), temos de enfrentar o espelho. Sim, o espelho. Nele vemos que as coisas mudaram, que a moeda valiosa impôs sobre nós seus efeitos e que, provavelmente, já não somos mais os mesmos.

E então, subitamente, percebemos que tudo mudou de lugar. Percebemos que nossa moeda valiosa não pode ser recarregada, pois simplesmente não existem postos de reabastecimento. Queremos voltar atrás, fazer diferente, tentar mais, arriscar mais, viver mais... mas vemos que tal capricho não nos foi permitido pelos deuses. Estamos presos. Tentamos, em vão, convencer outras pessoas a dar valor a esse pequeno detalhe da vida... mas, bobagem, estão todos muito ocupados com planos, com promessas, com futuros.

Um dia depois de nossa morte, todos voltam ao normal. As falas apaziguantes e as perguntas filosóficas, sobre quanto vale nossa vida ou para onde iremos todos nós, ficam esquecidas em algum porão da mente coletiva. O ciclo é sempre o mesmo e, com raras exceções, as pessoas voltam à normalidade sem levar completamente a sério que ninguém jamais saiu com vida desse processo.

Ele, contudo, continua sempre lá. Não pára. Não volta atrás. Não fica ressentido ou dá segundas chances. O tempo, sem dúvida alguma, é a moeda mais valiosa que temos em vida.

Quanto tempo ainda nos resta?
É bom sempre ter essa pergunta em mente.

Um abraço,
Gustavo

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Esconder para ser hipócrita

Todo ser humano tem algo a esconder, invariavelmente. Pode ser um objeto, uma mensagem de e-mail, um ódio, um amor proibido, uma paixão pecaminosa, uma história ou experiência passada, enfim, qualquer coisa. A questão é que, se fôssemos realmente honestos, afrouxaríamos um pouco nosso "juízo" em relação aos outros e passaríamos menos tempo a condenar e a jogar pedras. Saberíamos, por experiência própria, que é impossível viver de modo "correto" o tempo todo. E, assim, julgaríamos menos, odiaríamos menos, pouparíamos mais.

Todavia, admitamos que isso não ocorre com frequência. E não ocorre porque a hipocrisia está arraigada no coração humano. O que observamos, na verdade, é que, embora todos tenham sempre algo a esconder, a diferença reside em que uns têm mais sucesso na ocultação dos delitos do que outros. Logo, aqueles que escondem melhor são considerados "corretos", exemplares. Os que, por qualquer motivo, deixam os segredos à mostra, esses são considerados "errados" e amorais.

Naturalmente, isso tudo faz parte do auto-engano que alimentamos diariamente. Mas é curioso, bem curioso, notar que até nos sentimos bem em meio a tanta hipocrisia.

Gustavo Miranda

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Fora, Povo!

Pesquisa recente concluiu que a elite brasileira é mais moderna, ética, tolerante e inteligente do que o resto da população. Nossa elite, tão atacada através dos tempos, pode se sentir desagravada com o resultado do estudo, embora este tenha sido até modesto nas suas conclusões. Faltou dizer que, além das outras virtudes, a elite brasileira é mais bem vestida do que as classes inferiores, tem melhor gosto e melhor educação, é melhor companhia em acontecimentos sociais e é incomparavelmente mais saudável. E que dentes!

A pesquisa reforça uma tese que tenho há anos, segundo a qual o Brasil, para dar certo, precisa trocar de povo. Esse que está aí é de péssima qualidade. Não sei qual seria a solução. Talvez alguma forma de terceirização, substituindo-se o que existe por algo mais escandinavo. As campanhas assistencialistas que tentam melhorar a qualidade do povo atual só a pioram, pois, se por um lado não ajudam muito, pelo outro o encorajam a continuar existindo. E pior, se multiplicando. Do que adianta botar comida no prato do povo e não ensinar a correta colocação dos talheres, ou a escolha de tópicos interessantes para comentar durante a refeição? Tente levar o povo a um restaurante da moda e prepare-se para um vexame. O povo brasileiro só envergonha a sua elite.

Se não tivéssemos um povo tão inferior, nossos índices sociais e de desenvolvimento seriam outros. Estaríamos no Primeiro Mundo em vez de empatados com Botsuwana. São, sabidamente, as estatísticas de subemprego, subabitação e outros maus hábitos do povo que nos fazem passar vergonha.

Que contraste com a elite. Jamais se verá alguém da elite brigando e fazendo um papelão numa fila do SUS como o povo, por exemplo. Mas o que fazer? Elegância e discrição não se ensina. Classe você tem ou não tem. Mas o contraste é chocante, mesmo assim. Esse povo, decididamente, não serve.

Se ao menos as bolsas-família fossem Vuiton...

Luis Fernando Verissimo
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº 15350, 30/8/2007.

sábado, 15 de setembro de 2007

Contato Virtual

Há algum tempo, os psicólogos mais observadores discutiam o futuro das relações humanas no século XXI, na era que eles chamaram de era digital. Muitos diziam que as pessoas se tornariam frias e superficiais, já que o contato virtual, diferentemente do contato pessoal, não criaria laços suficientemente fortes para estimular a sociabilidade que é tão essencial na maior parte dos seres humanos. Outros diziam que seria necessário impor certos limites para que as pessoas não se fechassem em suas casas e fizessem do computador o único amigo, o que - segundo eles (obviamente) - só cooperaria para o afastamento das pessoas.

Enfim. Parece que todos estavam errados (ou parcialmente errados).

Gustavo Miranda

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Bourdieu

Interessante a ideia de Pierre Bourdieu (1998, p. 58), sobre o sistema escolar, os dons, as aptidões dos alunos e as desigualdades geradas.

[Além de permitir que a elite justifique sua identidade], a "ideologia do dom", chave do sistema escolar e do sistema social, contribui para encerrar os membros das classes desfavorecidas no destino que a sociedade lhes assinala, levando-os a perceberem como inaptidões naturais o que não é se não o efeito de uma condição inferior, e persuadindo-os de que eles devem seu destino social (cada vez mais estreitamente ligado ao seu destino escolar, à medida que a sociedade se racionaliza) - à sua natureza individual e à sua falta de dons. O sucesso excepcional de alguns indivíduos que escapam ao destino coletivo dá uma aparência de legitimidade à seleção escolar, e dá crédito ao mito da escola libertadora junto aos próprios indivíduos que ela eliminou, fazendo crer que o sucesso é uma simples questão de trabalho e de dons.

Vale a pena refletir sobre o assunto.

Um abraço,
Gustavo