terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Lembranças de escola

Creio que alguns já ouviram falar que a educação, sobretudo na idade média, era feita em mosteiros, na companhia de clérigos. Pois bem! Queria compartilhar aqui o relato de um jovem monge a respeito de sua experiência educacional, ao chegar ao mosteiro e ao aprender a ler. O texto chama-se "Lembranças de escola".

"Eu era totalmente ignorante e fiquei muito maravilhado quando vi os grandes edifícios do convento, nos quais deveria morar daquele momento em diante; mas fiquei muito contente pelo grande número de companheiros de vida e de jogo, que me acolheram amigavelmente. Depois de alguns dias, senti-me mais à vontade e apenas me adaptara aos hábitos comuns, quando Scholasticus Grimaldo me confiou a um mestre, com o qual devia aprender a ler. Eu não estava sozinho com ele, mas havia muitos outros meninos da minha idade, de origem ilustre ou modesta, que, porém, estavam mais adiantados do que eu. A bondosa ajuda do mestre e o orgulho, juntos, levaram-me a enfrentar com zelo as minhas tarefas, tanto que após algumas semanas conseguia ler bastante corretamente não apenas aquilo que escreviam para mim na tabuinha encerada, mas também o livro de latim que me deram. Depois recebi um livrinho alemão, que me custou muito sacrifício para ler mas, em troca, deu-me uma grande alegria. De fato, quando lia alguma coisa, conseguia entendê-la, o que não acontecia com o latim; tanto que no início ficava maravilhado porque era possível ler e, ao mesmo tempo, entender o que se tinha lido".

Esse relato, de um tal Walagried Strabo, data do século IX. Mas, respondam-me: o modo como o autor fala da alegria de aprender a ler não é, de certa forma, semelhante à alegria que nós todos sentimos quando aprendemos algo?

Um abraço,
Gustavo

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Não leia...

"Não leia para contradizer e contestar
ou para acreditar e tomar como certo,
nem para descobrir assunto de conversa.

Leia, isso sim, para pesar e considerar".
Bacon (1561 - 1626)

Um abraço,
Gustavo

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O elixir da longa vida

Não tenho dúvidas de que a ciência tem desempenhado um papel fundamental em nosso cotidiano. Tem prolongado vidas, por exemplo, que - de outra forma - já não estariam mais entre nós há muito tempo. A dificuldade, no entanto, é que falta uma coisa. Falta o “x” da questão. Falta descobrir como fazer as pessoas viverem mais e melhor, já que, se não for assim, todo o resto será apenas o prolongamento de uma vida que já deveria ter acabado (será sofrimento, enfado e cansaço).

Não que o aumento da expectativa de vida e os desdobramentos possíveis não me agradem. Agradam-me, sim! E muito! A questão, porém, é que me causam horrores também. Na verdade, fico sempre refletindo: que triste seria querer morrer e não poder...

Clarice Lispector tratava desse dilema numa crônica simples e despretensiosa intitulada “A eternidade num chiclete”. Dizia ela que o peso da eternidade, ao que parece, é maior do que imaginamos. Mas o problema é que só nos damos conta disso quando já é suficientemente tarde e já não importa muito viver.

Insisto: falta o “x” da questão. Números e qualidade. Aliar os dois ainda parece ser um sonho distante, ainda que isso, por si só, não deixe de alimentar nossas fantasias mais antigas todos os dias. O elixir da longa vida, afinal. A imortalidade. Será possível?

Gustavo Miranda

domingo, 11 de janeiro de 2009

O quase encontro

E, de fato, num belo dia, o telefone tocou. Era ela. Estava em São Paulo. Queria marcar um encontro. Marquei. Claro. O que eu podia fazer? Esperava por aquilo há anos. Três minutos de conversa e eu já tinha em mãos um endereço e um horário para encontrá-la. Era tudo o que devia ser... mas eu nem acreditava que o dia havia realmente chegado (acho que nem ela). Lembro-me de ter saído apressado de casa, levemente pensativo, para ir ao local combinado (afinal, eu estava preparado para aquilo?). Era um shopping. E estava cheio. Na verdade, lotado. A pressa me fez chegar 30 minutos antes do horário marcado, de modo que minha mente, vendo tanta gente passar e passar, começou a fantasiar coisas inesperadas, que nunca até então tinham feito parte de minhas mais estranhas elucubrações. Decidi, então, me esconder por um momento no corredor dos banheiros. E lá fiquei. 40 minutos. Fazendo de conta que procurava um cartão telefônico para ligar para não sei quem.

E foi dali, do corredor dos banheiros, que eu a vi chegar. Soube que era ela desde o primeiro instante. Porque ela me procurava. Olhava para os lados e não me achava, seus olhos penetrantes na multidão, esperando por mim, aguardando no meio do salão. De longe, contemplei seu rosto discretamente. E cheguei mesmo a pensar que sentia o cheiro de seus cabelos macios. Era linda. Muito mais do que eu imaginava. A pele branca contrastando com seus cabelos negros e olhos claros. Sua expressão preocupada, de quem espera alguém, tornando-a ainda mais bela e sedutora. Foram minutos de prazer. Prazer visual. Um prazer iniciado há dois anos, numa sala virtual, de Internet, que se concretizava dentro daquele shopping, no meio de tantas pessoas estranhas.

Na verdade, aquela tarde só não foi melhor porque "esqueci" de fazer o que qualquer pessoa em sã consciência teria feito. Não fui ao encontro dela. Não tive coragem. Não me apresentei. Não levei um presente. Nem mesmo disse "oi". Em vez disso, saí, de fininho, e cometi o maior de todos os pecados. Deixei uma donzela, linda, esperando, e nunca mais dei notícias.

Um abraço,
Gustavo

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Alunos que deixam saudades...

É curioso. Quem nunca deu aula, não sabe o que é. Esse sentimento bom, ao mesmo tempo triste, que nos invade quando vemos nossos alunos se formando, indo embora, iniciando uma nova etapa, sorrindo para a vida. É gostoso, claro. Triste também. Porque, no fundo, é impossível negar que as pessoas nos marcam. E, se marcam, deixam saudades. Abrem uma lacuna na alma que não será mais preenchida pelo convívio diário. Ficarão lembranças no lugar.

E este ano a história se repete. Turmas se formam. Encontros novos surgem. Despedidas. Lágrimas. Sorrisos. Vida nova. Alguns desses alunos tiveram aula comigo durante três ou quatro anos. Somos velhos amigos. Talvez seja por isso que desejamos de modo recíproco a velha alegria de sempre. A velha alegria que renova. Que dá ânimo. E que, sem dúvida, consola ambos: os que vão... e os que ficam. Alunos e professores.

Visualizei uma imagem: um homem debruçado na varanda de um prédio alto. A analogia é que, para os que se formam, o tempo é de se debruçar sobre o que foi feito. Tempo de analisar. De refletir. De planejar. De se abrir para um mundo de novas possibilidades. Sem perder de vista o céu que vemos pela varanda, muito mais alto, muito mais formoso, significando que ainda temos muito a "escalar". Muito a estudar.

Se vamos alcançar o céu, não sei. Mas, se o poeta está certo, então nem precisamos. Existem mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia.

Enfim. Tudo isso para dizer que esses momentos marcam... e que os alunos deixam saudades. Rubem Alves diz que "a saudade é o bolso em que a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou". Concordo plenamente. E, como sou professor, acrescento que a cada ano meu "bolso" fica mais bonito e mais cheio.

Sucesso a todos os meus alunos que se formam e que... deixam saudades.

Um abraço,
Gustavo

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Lista de defuntos

Antes de tudo, me respondam: que satisfação mórbida algumas pessoas têm em consultar a lista de defuntos do velório de um cemitério?

Pois é. Conheço uma velhinha que faz isso todos os dias. É a dona Lourdes, aqui da rua. Na verdade, "dona Lu", para os íntimos.

Dona Lu tem aproximadamente 70 anos. Move-se com dificuldade. Cabelos grisalhos arroxeados. Olhar parado, roupas sinistras, um leve cheiro de naftalina. O lugar típico para encontrá-la é o cemitério da Vila Guarani. Não importa quem seja o morto. Quem sejam os familiares. Ela sempre está lá, com uma curiosidade fora do comum. Sua dedicação a essa tarefa é tão "profissional" que, aqui nas redondezas, ela vive causando situações inusitadas. A mais comum é que as pessoas, por saberem de seu costume estranho, criaram certa superstição. Se a encontram na feira ou pelas ruas, logo começam a se benzer. Claro, é compreensível. Ao olhar para dona Lu, lembram do ritual patético e fúnebre da senhora e, naturalmente, imaginam que ela tenha mesmo o dom de atrair a morte.

O mais misterioso dos casos, no entanto, é aquele que contam ter acontecido no último dia de finados. Dona Lu desapareceu, não foi vista em casa nem em canto algum. Simplesmente sumiu, evaporou (parece óbvio que esse fato, por si só, não é digno de muita atenção, eu concordo). O porteiro do cemitério, porém, jura que lá pelas 2 e 33 da manhã ouviu alguns sons estranhos e um leve cheiro de naftalina no ar. Viu de longe a silhueta de uma pessoa que se locomovia devagar e que parecia carregar uma tampa de caixão nas mãos... Resultado: de um tempo para cá, ninguém mais duvida de que a velhinha esteve no cemitério para prestar alguma homenagem mórbida a algum falecido. Não existem provas, claro. Mas o porteiro, que pediu demissão no outro dia e nunca mais foi visto, jamais deu detalhes pormenorizados do ocorrido... alguns dizem até que ele morreu.

Bem, para ser sincero, eu não acredito muito nessas histórias. É verdade que dona Lu é estranha, que chega a dar medo em muitos que tentam puxar alguma conversa (qual seria o assunto? Os falecidos da semana?). Apesar disso, creio que a paixão dela de ver a lista diária de defuntos seja proporcional à minha paixão de inventar histórias que não existem.

Se isso for verdade, amanhã dona Lu estará novamente no cemitério.
E eu... aqui escrevendo histórias.

Um abraço,
Gustavo

domingo, 2 de novembro de 2008

Até quando?

Até quando terás, minha alma, esta doçura, este dom de sofrer, este poder de amar, a força de estar sempre – insegura – segura como a flecha que segue a trajetória obscura, fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?

(Cecília Meirelles)