terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sob a neblina...

Nada mais importa. E o que outrora alegrava já não cativa mais, não desperta paixão e nem sentimento. Torna-se enfado, sugere cansaço mental e jamais passa impune aos olhos de observadores mais cuidadosos. Infelizmente, depois que a neblina se instala, não existe mais luz capaz de esclarecer os pensamentos. Em troca de uma fagulha de ânimo, vira-se refém. Refém de si mesmo, o pior dos castigos, preso no próprio corpo, sem poder apelar a ninguém, conectado para sempre a essa rede de sofrimento.

O tormento chega a tal ponto que morrer vira um troféu (um almejado troféu). Tudo fica amargo como fel. E a remota ilusão de alcançar o céu não traz nenhuma alegria comparada ao inferno que é viver diariamente como réu de um crime que jamais se cometeu.

Pouco se sabe... e poucos encaram com seriedade esse problema que assola grande parte da população mundial. Depressão. Esse é o mal do século XXI. Será que a salvação está nos tranquilizantes?

Um abraço,
Gustavo

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Quando as luzes se apagam

Rostos bonitos, vestindo roupas de marca, sapatos combinando e com cabelos cuidadosamente tratados e alisados passavam por mim. Eu estava num shopping-center. A feira das vaidades.

Um evento tornou essa experiência (já conhecida de todos nós) diferente dessa vez. Repentinamente, acabou a energia. Uma luz fraca de segurança se acendeu. E, em meio a suspiros de decepção, as pessoas (que não tinham nada melhor para fazer em suas casas) continuaram andando nos corredores mal-iluminados. Algumas lojas decidiram fechar. Outras tantas continuaram a atender e a vender, aproveitando os pequenos raios de luz, que - na verdade - tornavam o ambiente ainda mais curioso: uma ligeira penumbra capitalista, o verdadeiro exemplo de comprar no escuro.

Durante os 15 ou 20 minutos de sombras, porém, uma coisa chamou a atenção. A feira das vaidades não funciona no escuro. Os rostos bonitos, vestindo roupas de marca, sapatos combinando e com cabelos tratados já não eram notados. Entendi, imediatamente, o porquê dos suspiros de decepção. O templo capitalista exige luz, mas uma luz diferente da que esclarece os pensamentos. A luz que ofusca a verdade.

E a verdade é que, nesse mundo de glamour, de etiquetas cada vez mais caras e reservadas a poucos, as pessoas perdem totalmente a identidade quando as luzes se apagam. Talvez essa seja a pergunta a ser respondida: o que esse mundo tem a oferecer quando as luzes simplesmente falham?

Não posso negar que essa pequena experiência me forneceu uma resposta. Mais que isso: a falta de energia no shopping foi um experimento filosófico. A alegoria da caverna de Platão nunca foi tão bem representada.

Um abraço,
Gustavo

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz 2010

Caros leitores e leitoras deste blog:

Gostaria de desejar-lhes felicidades, saúde e um ótimo 2010.
Desejo-lhes também muitos terremotos, bons combates, muita indignação e ousadia, insônias, sintomas abundantes. Mas que em tudo isso os sentimentos sejam justos, as batalhas dignas e o desespero lúcido. Que neste ano não faltem encontros alquímicos e que o aço do Ser seja temperado a cada dia. Mais que isso: que a história que todos nós viemos contar e semear seja recordada e honrada para sempre.

Loucura? Sonho? Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira, mas tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum. Monteiro Lobato.

Feliz Ano Novo!

Um abraço,
Gustavo

sábado, 17 de outubro de 2009

Encontros e Despedidas

E mais uma vez a vida nos faz encarar o velho dilema da humanidade. Encontros e despedidas. Alegrias e dores. Ganhos e perdas.

Muitos já escreveram sobre o assunto. Muitos filosofaram. Vários intuíram. Mas nunca ninguém entendeu o cerne da reflexão sem antes experimentar na própria pele a dificuldade da questão. A verdade é que a vida não segue regras. Não acompanha conceitos morais. Não nos dá ou tira o que julgamos conveniente ou racional, apenas faz o que tem de ser feito, sem aviso prévio, sem razão, quando bem entende (sorte daqueles que encontram compatibilidade entre o que querem e o que a vida dá).

A vida consiste em experimentar a alegria de ver gente chegando, nascendo, fazendo nossa vida mais feliz. E, ao mesmo tempo, enfrentar a dificuldade de abrir mão de pessoas queridas, que já cumpriram seu objetivo, ou que simplesmente foram “chamadas” mais cedo.

Hoje, infelizmente, me fiz essa pergunta e refleti bastante sobre a questão. Minha avó partiu e levou com ela uma parte de mim que certamente nunca mais voltará a ser a mesma.

Ficaram as lembranças boas. Doeram as sensações de adeus. São encontros e despedidas. Alegrias e dores. Fazem parte da vida. Mas a gente reluta em aceitar... desde que o mundo é mundo. Desde que a gente é gente.

Saudades, Vó! Muitas mesmo...

Gustavo

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Certeza de ter razão...

Palavras do prêmio Nobel em Biologia Molecular:

Não é somente o interesse que leva os seres humanos a se matar. Também é o dogmatismo. Nada é tão perigoso quanto a certeza de ter razão. Nada causa tanta destruição quanto a obsessão de uma verdade considerada absoluta. Todos os crimes da História foram consequência de algum fanatismo. Todos os massacres foram realizados por virtude: em nome da Religião verdadeira, do racionalismo legítimo, da política idônea, da ideologia justa; em suma, em nome do combate contra a verdade do outro, do combate contra Satã. [FRANÇOIS JACOB, grifo meu].

Sábias. Precisas e, sobretudo, inspiradoras.

Um abração,
Gustavo

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Julio Verne e Fitzgerald

Pequenas dicas de leitura:

1- Acabei de reler o livro "Viagem ao centro da Terra". Julio Verne é, sem dúvida, um dos melhores escritores de ficção científica que já li. Consegue unir uma série de informações científicas com enredos que prendem a atenção. Tive a mesma sensação quando li "Volta ao mundo em 80 dias". São clássicos. E os clássicos dizem muito, sempre.

2- Estou lendo um romance de F. Scott Fitzgerald chamado "This side of Paradise" (Este lado do paraíso), de 1920. É o livro de estréia do autor. Vale lembrar que Fitzgerald foi parte da "lost generation" (a geração perdida) nos Estados Unidos, termo dado ao grupo de artistas e escritores que acabou abandonando o país entre o período do pós-primeira-guerra e início da Grande Depressão (em 1929). Excêntrico ele. Acho que escreveu e bebeu durante a vida toda. Mas que sensibilidade ele tinha. Aliás, foi muito amigo de Ernest Hemingway, outra grande figura. Neste livro, ele narra com detalhes o que era ser jovem numa América também jovem. Muito interessante e cheio de reflexões, sobretudo o percurso de "pré-universitário" que ele descreve tão bem. Vale a pena ver!

Um abraço,
Gustavo

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O nascimento da borboleta

Desencanto
By José Saramago

Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma maioria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo. Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia. O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo.

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E aí me vem a pergunta: estamos assistindo à morte da lagarta ou ao nascimento da borboleta? Para ser sincero, tenho dúvidas.

Um abraço,
Gustavo