domingo, 6 de julho de 2008

O Tempo

A gente não percebe, ou não quer perceber, que - enquanto planejamos nossa vida, enquanto nos enganamos com promessas de amanhã - existe algo que não pára, que não espera, que não volta atrás e não fica ressentido pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Ele simplesmente continua, sua batida organizada e milimetricamente cadenciada, esperando que algum dia alguém perceba que ele é a moeda mais valiosa que carregamos.

Mas, querem saber? Isso não acontece até que seja suficientemente tarde. Até que seja suficientemente irreversível. Antes disso, existem preocupações demais, de modo que é impossível dar valor a algo que supostamente temos em abundância. Aos 12 anos, não temos sequer maturidade para avaliar sua importância. Aos 30, estamos tão atarefados que esse detalhe passa despercebido. Aos 50, pensamos que ainda teremos o momento certo para pensar no assunto. E, aos 70, nos damos ao luxo de sonhar com a imortalidade. Porém, cedo ou tarde (e, geralmente, tarde), temos de enfrentar o espelho. Sim, o espelho. Nele vemos que as coisas mudaram, que a moeda valiosa impôs sobre nós seus efeitos e que, provavelmente, já não somos mais os mesmos.

E então, subitamente, percebemos que tudo mudou de lugar. Percebemos que nossa moeda valiosa não pode ser recarregada, pois simplesmente não existem postos de reabastecimento. Queremos voltar atrás, fazer diferente, tentar mais, arriscar mais, viver mais... mas vemos que tal capricho não nos foi permitido pelos deuses. Estamos presos. Tentamos, em vão, convencer outras pessoas a dar valor a esse pequeno detalhe da vida... mas, bobagem, estão todos muito ocupados com planos, com promessas, com futuros.

Um dia depois de nossa morte, todos voltam ao normal. As falas apaziguantes e as perguntas filosóficas, sobre quanto vale nossa vida ou para onde iremos todos nós, ficam esquecidas em algum porão da mente coletiva. O ciclo é sempre o mesmo e, com raras exceções, as pessoas voltam à normalidade sem levar completamente a sério que ninguém jamais saiu com vida desse processo.

Ele, contudo, continua sempre lá. Não pára. Não volta atrás. Não fica ressentido ou dá segundas chances. O tempo, sem dúvida alguma, é a moeda mais valiosa que temos em vida.

Quanto tempo ainda nos resta?
É bom sempre ter essa pergunta em mente.

Um abraço,
Gustavo

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Kafka

Fim de semestre é sempre uma correria, mas gostaria de deixar com vocês uma indicação virtual que contém vários textos do Franz Kafka. Para quem nunca ouviu falar dele, deixo um link que pode esclarecer algumas coisas: http://pt.wikipedia.org/wiki/Franz_Kafka

A indicação:
http://paginas.terra.com.br/arte/ecandido/kafka.htm

Um abraço a todos
Gustavo

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Sendo cético

Isso serve para muitas situações na vida:

"Só confie numa testemunha quando ela fala de questões em que não se acham envolvidos nem o seu interesse próprio, nem as suas paixões, nem os seus preconceitos, nem o amor pelo maravilhoso. No caso de haver esse envolvimento, requeira evidência corroborativa em proporção exata à violação da probabilidade provocada pelo seu testemunho".

Thomas Henry Huxley (1825 - 1895)

Um abraço,
Gustavo

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Esconder para ser hipócrita

Todo ser humano tem algo a esconder, invariavelmente. Pode ser um objeto, uma mensagem de e-mail, um ódio, um amor proibido, uma paixão pecaminosa, uma história ou experiência passada, enfim, qualquer coisa. A questão é que, se fôssemos realmente honestos, afrouxaríamos um pouco nosso "juízo" em relação aos outros e passaríamos menos tempo a condenar e a jogar pedras. Saberíamos, por experiência própria, que é impossível viver de modo "correto" o tempo todo. E, assim, julgaríamos menos, odiaríamos menos, pouparíamos mais.

Todavia, admitamos que isso não ocorre com frequência. E não ocorre porque a hipocrisia está arraigada no coração humano. O que observamos, na verdade, é que, embora todos tenham sempre algo a esconder, a diferença reside em que uns têm mais sucesso na ocultação dos delitos do que outros. Logo, aqueles que escondem melhor são considerados "corretos", exemplares. Os que, por qualquer motivo, deixam os segredos à mostra, esses são considerados "errados" e amorais.

Naturalmente, isso tudo faz parte do auto-engano que alimentamos diariamente. Mas é curioso, bem curioso, notar que até nos sentimos bem em meio a tanta hipocrisia.

Gustavo Miranda

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A misteriosa chama...

Uma indicação de leitura, para quem ainda não teve a oportunidade de ler.
"A misteriosa chama da rainha Loana", de Umberto Eco.

Resuminho:
Yambo, um senhor de mais ou menos 60 anos, acorda num quarto de hospital. Ao seu lado, um médico informa que ele deve manter repouso e que o acidente sofrido deixou uma sequela: a memória. Yambo não se recorda que tem uma esposa, filhos, netos e, muito menos, que trabalha como livreiro em Milão. Também não se recorda que, em seu estúdio (onde vende os livros), há uma assistente linda e loira, chamada Sibilla, por quem, provavelmente, já alimentou desejos impuros no passado. Ao sair do hospital, Yambo tem uma difícil tarefa pela frente: reconstruir suas próprias lembranças de vida; reviver as experiências que o fizeram ser quem ele sempre foi antes do acidente. De que modo ele fará isso? Inventariando e analisando uma série de arquivos de sua infância: cadernos de escola, jornais da época de juventude, discos, cartas de amor, livros, etc. O resultado é que, a cada experiência com esses arquivos, uma parte da própria vida de Yambo vem à tona, numa trama interessantíssima e com um final surpreendente.

Como sempre tenho dito, Umberto Eco é Umberto Eco. Um dos poucos acadêmicos que consegue unir trama arrojada e informações fiéis, sem se tornar chato ou técnico demais. Meu veredicto é: li e gostei.

Um abraço,
Gustavo

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Fora, Povo!

Pesquisa recente concluiu que a elite brasileira é mais moderna, ética, tolerante e inteligente do que o resto da população. Nossa elite, tão atacada através dos tempos, pode se sentir desagravada com o resultado do estudo, embora este tenha sido até modesto nas suas conclusões. Faltou dizer que, além das outras virtudes, a elite brasileira é mais bem vestida do que as classes inferiores, tem melhor gosto e melhor educação, é melhor companhia em acontecimentos sociais e é incomparavelmente mais saudável. E que dentes!

A pesquisa reforça uma tese que tenho há anos, segundo a qual o Brasil, para dar certo, precisa trocar de povo. Esse que está aí é de péssima qualidade. Não sei qual seria a solução. Talvez alguma forma de terceirização, substituindo-se o que existe por algo mais escandinavo. As campanhas assistencialistas que tentam melhorar a qualidade do povo atual só a pioram, pois, se por um lado não ajudam muito, pelo outro o encorajam a continuar existindo. E pior, se multiplicando. Do que adianta botar comida no prato do povo e não ensinar a correta colocação dos talheres, ou a escolha de tópicos interessantes para comentar durante a refeição? Tente levar o povo a um restaurante da moda e prepare-se para um vexame. O povo brasileiro só envergonha a sua elite.

Se não tivéssemos um povo tão inferior, nossos índices sociais e de desenvolvimento seriam outros. Estaríamos no Primeiro Mundo em vez de empatados com Botsuwana. São, sabidamente, as estatísticas de subemprego, subabitação e outros maus hábitos do povo que nos fazem passar vergonha.

Que contraste com a elite. Jamais se verá alguém da elite brigando e fazendo um papelão numa fila do SUS como o povo, por exemplo. Mas o que fazer? Elegância e discrição não se ensina. Classe você tem ou não tem. Mas o contraste é chocante, mesmo assim. Esse povo, decididamente, não serve.

Se ao menos as bolsas-família fossem Vuiton...

Luis Fernando Verissimo
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº 15350, 30/8/2007.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O verdadeiro você

From: L. F. V.
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Um homem só se conhece em duas situações: quando está sob a ameaça de uma arma ou quando quer conquistar uma mulher. Há quem diga que existe um terceiro teste: como o homem reage diante de um vitral da catedral de Chartes. Pode ter sido um materialista incréu a vida toda, mas diante de um vitral da catedral de Chartes se descobre um místico - ou não. Sei de céticos que, com certa luz do entardecer batendo nos vitrais da catedral de Chartes, chegaram a levitar alguns centímetros, até racionalizarem a situação e voltarem para o chão. Mas só nos conhecemos, mesmo, na frente de uma arma ou atrás de uma mulher.

Você pode argumentar que ambas são situações de descontrole emocional. Errado: o descontrole é o homem. O controle é o disfarce. Você deve se julgar pelo seu comportamento quando enfrentou a possibilidade da morte ou quando estava a fim da (nome hipotético) Gesileide. Aquela vez que você se escondeu atrás de um poste para ver se ela chegava em casa com alguém. Meia-noite e você atrás do poste, sob o olhar curioso de cachorros e porteiros, fingindo que lia a lista do bicho no escuro. Aquele imbecil - e não esse cidadão adulto, respeitável, razoável, comedido, talvez até com títulos - é você. Tudo o mais é a capa do imbecil essencial. Tudo o mais é fingimento. Você nunca foi tão você quanto atrás daquele poste.

Pense em tudo o que você já fez para conquistar uma mulher. Os falsos encontros casuais, cuidadosamente arquitetados. Os falsos telefonemas errados, só para ouvir a voz dela ("Telefonei para você? Onde eu estava com a cabeça!"). As bobagens que você disse, tentando impressioná-la. Pior, as bobagens que você ensaiou em casa e disse como se tivesse pensado na hora. O que você lhe escreveu, sem revisão nem autocrítica. Aquele ridículo era você. Os dias e dias que você passou só pensando nela. O país desse jeito, e você só pensando nela. Sem dormir, pensando nela. Tanta coisa para fazer, e você escrevendo o nome dela sem parar... Gesileide, Gesileide, Gesileide. E as mentiras? E a vez que você inventou que era meio-primo do Julio Iglesias?

E o que você sofreu quando parecia que não ia dar certo? Como um adolescente. Aquele adolescente era você. Isso que você é agora é o disfarce, é o imbecil essencial em recesso provisório. Só o vexame é autêntico num homem.